Cuidar começa por dentro
A forma como falamos com nós mesmos também é autocuidado
A forma como falamos com nós mesmos também é autocuidado
Antes de cuidar do mundo ao redor, precisamos observar a conversa que acontece todos os dias dentro da nossa própria cabeça. As palavras que dirigimos a nós mesmos podem ser fontes de acolhimento ou de sofrimento.
“Eu sou muito desorganizada.”
“Eu nunca consigo fazer nada direito.”
“Eu deveria estar melhor a essa altura.”
Quantas vezes essas frases aparecem silenciosamente durante o dia? Em muitas ocasiões, somos capazes de oferecer compreensão, paciência e carinho para quem amamos, mas mantemos uma voz interna dura, crítica e impaciente quando falamos de nós mesmos. O que precisamos entender é que o autocuidado também mora nesse lugar invisível: na maneira como nos tratamos.
A nossa voz interna constrói a nossa experiência
A forma como pensamos influencia a maneira como sentimos e agimos. Uma cobrança constante pode gerar culpa, ansiedade e a sensação de que nunca somos suficientes. Já uma comunicação interna mais gentil não significa ignorar dificuldades ou deixar de buscar mudanças. Significa trocar a punição pelo acolhimento.
Em vez de:
“Eu fracassei novamente.”
Podemos experimentar:
“Essa situação foi difícil. O que posso aprender com ela?”
Em vez de:
“Eu não dou conta.”
Podemos perguntar:
“O que eu preciso neste momento para conseguir seguir?”
Essa mudança parece pequena, mas transforma a relação que construímos conosco.
Falar consigo também é uma forma de presença
Na prática de atenção plena, existe um convite importante: observar sem julgamento. Isso vale para os pensamentos, emoções e também para a nossa própria história.
Nem todo pensamento que aparece merece ser acreditado. Às vezes, carregamos vozes antigas: cobranças que vieram da infância, comparações sociais ou expectativas que nunca escolhemos verdadeiramente. Cuidar é perceber essas vozes e escolher quais delas queremos alimentar.
A gentileza também precisa começar comigo
A pesquisadora Kristin Neff, referência nos estudos sobre autocompaixão, defende que tratar a si mesmo com compreensão em momentos difíceis não é fraqueza, mas uma forma saudável de enfrentar desafios.
A autocompaixão envolve três movimentos:
1. Reconhecer a dificuldade
Permitir-se dizer: “isso está sendo difícil”.
2. Lembrar da humanidade compartilhada
Entender que errar, sentir medo e passar por fases difíceis fazem parte da experiência humana.
3. Oferecer gentileza a si mesmo
Perguntar: “como eu falaria com alguém que amo nessa mesma situação?”
Talvez essa seja uma das perguntas mais importantes do cuidado:
Eu falaria comigo da mesma forma que falaria com alguém que amo?
Pequenas práticas para uma conversa interna mais cuidadosa
Observe seu diálogo interno
Durante um dia, perceba quais frases você repete sobre você mesmo.
Troque julgamento por curiosidade
Em vez de perguntar “por que eu sou assim?”, experimente: “o que está acontecendo comigo agora?”
Crie uma pausa antes da crítica
Respire e pergunte: “essa fala me ajuda ou me machuca?”
Reconheça pequenas conquistas
Nem todo avanço precisa ser grande para ser importante.
Um cuidado que ninguém vê, mas transforma tudo
Cuidar de si não começa na ida ao spa, na alimentação saudável ou em uma rotina organizada. Esse cuidado tem início no instante em que escolhemos não ser nosso próprio inimigo.
A forma como falamos conosco é uma das relações mais longas que teremos na vida. Então, que ela possa ser construída com mais presença, respeito e carinho. Porque antes de cuidar do mundo, existe alguém que também precisa ser cuidado: nós mesmos.
Ana Cleide Pacheco
Fundadora do Viva com AtençãoJornalista de formação e de coração, Ana Cleide trabalha há mais de duas décadas com comunicação, conteúdo e histórias.
Sua trajetória também percorre o universo do mindfulness, da comunicação não-violenta, da economia da atenção e das práticas de presença.
Foi do encontro entre comunicação e cuidado que nasceu o Viva com Atenção, um espaço criado para refletir sobre relações, autocuidado, trabalho, escolhas, desaceleração e formas mais conscientes de estar no mundo.