Desconectar

Economia da atenção: por que está cada vez mais difícil se conectar?

Ana Cleide Pacheco
Por Ana Cleide Pacheco
18 de agosto de 2026 4 min de leitura
Para começar

Em um cenário de excesso de estímulos, recuperar a capacidade de estar presente nunca foi tão importante

Em um mundo cheio de informações, notificações e estímulos, o recurso mais disputado deixou de ser o acesso ao conteúdo. É a nossa atenção. Imagine a cena: você pega o celular para responder uma mensagem. Cinco minutos depois, está assistindo a um vídeo, lendo uma notícia, conferindo uma promoção e respondendo outra notificação e, quando percebe, já se passaram 30 minutos.

Apesar de não parecer, a pergunta mais importante não é:

“Quanto tempo eu passo conectado?”

Mas:

“Para onde a minha atenção está indo?”

A era da abundância criou uma nova escassez

Em 1971, muito antes das redes sociais, dos smartphones e dos algoritmos, o economista e cientista da computação Herbert Simon já havia percebido uma mudança fundamental na sociedade.

Em seu texto Designing Organizations for an Information-Rich World, Simon afirmou que, em um mundo rico em informações, algo se tornaria escasso: a atenção humana. Sua ideia era simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: quanto mais informação temos disponível, mais difícil se torna escolher aquilo que realmente merece nossa atenção. 

A previsão de Simon se tornou uma das bases para compreender o que hoje chamamos de economia da atenção: um modelo em que empresas e plataformas disputam nosso tempo, nosso olhar e nosso envolvimento. 

A atenção virou um produto

Durante muito tempo, o desafio era encontrar informação. Hoje, o desafio é conseguir filtrar. Recebemos mensagens, notícias, vídeos, anúncios e opiniões em uma velocidade que nosso cérebro não foi preparado para acompanhar.

E a questão não é apenas estar online, é viver em um ambiente criado para interromper. Cada notificação, cada atualização e cada novo conteúdo disputa uma pequena parte da nossa capacidade de concentração.

Em artigo publicado em 2024 na revista Philosophy & Technology*, a filósofa finlandesa Kaisa Kärki argumenta que os impactos da distração digital não são iguais para todas as pessoas. Segundo a autora, fatores como a capacidade de regular a atenção e as desigualdades sociais influenciam a forma como cada indivíduo responde aos ambientes digitais cada vez mais persuasivos.

Por que desconectar ficou tão difícil?

Porque a conexão digital oferece algo muito poderoso: pequenas recompensas imediatas: uma mensagem nova, uma curtida, uma novidade, um conteúdo inesperado. 

Como o cérebro humano é atraído por novidades, muitas plataformas digitais foram construídas para manter esse ciclo de retorno constante. Ou seja, não é apenas uma questão de “falta de disciplina”, é também uma questão de ambiente, já que vivemos cercados por ferramentas desenvolvidas para capturar atenção.

Mas estamos realmente conectados?

Existe uma contradição curiosa: nunca tivemos tantos meios para conversar, mas muitas pessoas relatam dificuldade para estar verdadeiramente presentes. Estamos juntos em uma mesa, mas olhando telas. Estamos em uma conversa, mas pensando na próxima notificação. Estamos consumindo muitas informações, mas tendo pouco espaço para refletir. A conexão profunda exige algo que a economia da atenção frequentemente interrompe:

tempo, silêncio e presença.

Desconectar não é abandonar o digital

A proposta não é voltar ao passado ou rejeitar a tecnologia. E não dá para negar que a vida digital também trouxe possibilidades incríveis de aprendizado, comunicação e criação. O convite é recuperar uma relação mais consciente com aquilo que ocupa nossa atenção.

Algumas perguntas podem ajudar:

Eu escolho onde coloco minha atenção ou apenas acompanho o que aparece?

Quais momentos do meu dia não têm nenhuma tela?

Consigo permanecer alguns minutos sem buscar estímulos externos?

O que tem recebido minha atenção e talvez não mereça tanto espaço?

A atenção é uma forma de cuidado

Cuidar da atenção é cuidar da própria vida. Porque aquilo que recebe nossa atenção cresce: sejam nossos pensamentos, relacionamentos, projetos ou nossas emoções.

Em um mundo que disputa cada segundo do nosso olhar, talvez desconectar seja uma maneira de voltar a escolher. Escolher estar, ouvir, viver com mais presença.

Você sabia?

O conceito de economia da atenção ganhou força a partir da ideia de Herbert Simon, apresentada em 1971: a informação deixou de ser o principal problema; o desafio passou a ser administrar a atenção humana. 

Estudos recentes mostram que o uso intenso de mídias digitais levanta questões sobre distração e capacidade de autorregulação da atenção. 

  • Kärki, Kaisa. (2024). Digital Distraction, Attention Regulation, and Inequality. Philosophy & Technology, v. 37, artigo 8. DOI: 10.1007/s13347-024-00698-z.
Ana Cleide Pacheco
Sobre a autora

Ana Cleide Pacheco

Fundadora do Viva com Atenção

Jornalista de formação e de coração, Ana Cleide trabalha há mais de duas décadas com comunicação, conteúdo e histórias.

Sua trajetória também percorre o universo do mindfulness, da comunicação não-violenta, da economia da atenção e das práticas de presença.

Foi do encontro entre comunicação e cuidado que nasceu o Viva com Atenção, um espaço criado para refletir sobre relações, autocuidado, trabalho, escolhas, desaceleração e formas mais conscientes de estar no mundo.

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