Trabalhar

Trabalhar com atenção é diferente de trabalhar sem parar

Ana Cleide Pacheco
Por Ana Cleide Pacheco
01 de setembro de 2026 11 min de leitura
Para começar

Você termina uma tarefa e já existe outra esperando. Responde a um e-mail enquanto participa de uma reunião. Confere uma mensagem no celular entre uma atividade e outra. Almoça diante do computador. Leva uma pendência para casa. Antes de dormir, lembra de algo que ficou para amanhã. E, quando finalmente encerra o expediente, ainda pode existir aquela sensação incômoda: “Eu trabalhei o dia inteiro, mas será que fiz o suficiente?”

Você termina uma tarefa e já existe outra esperando. Responde a um e-mail enquanto participa de uma reunião. Confere uma mensagem no celular entre uma atividade e outra. Almoça diante do computador. Leva uma pendência para casa. Antes de dormir, lembra de algo que ficou para amanhã. E, quando finalmente encerra o expediente, ainda pode existir aquela sensação incômoda: “Eu trabalhei o dia inteiro, mas será que fiz o suficiente?”

Essa é uma das perguntas que melhor traduzem nossa relação contemporânea com o trabalho. Porque, em algum momento, produtividade deixou de significar apenas fazer bem uma tarefa e passou a ser confundida com fazer cada vez mais. Responder mais rápido, produzir mais, entregar mais, estar disponível o tempo todo. Mas trabalhar com atenção é outra coisa.

Fazer mais não significa necessariamente produzir melhor

A ideia de produtividade costuma estar associada à quantidade: quantas tarefas foram concluídas, quantos e-mails foram respondidos, quantas horas trabalhamos, quantos resultados entregamos. Mas existe uma pergunta anterior: o que realmente precisava ser feito?

Trabalhar com atenção significa ser capaz de distinguir o que é prioridade do que apenas parece urgente e conseguir dedicar atenção a uma tarefa sem estar permanentemente dividido entre várias outras. É reconhecer que uma pausa não é necessariamente tempo perdido e que a atenção também precisa de condições para se sustentar ao longo do dia.

Para a psicóloga e sócia-diretora da Perfil RH, Luana Corrêa Santos Amaro, uma das maneiras de tornar a rotina mais organizada e favorecer uma relação mais atenta com o trabalho é estabelecer prioridades e distribuir as atividades ao longo do dia. “Eu acredito que o que pode nos ajudar a trabalhar com mais atenção é a gente ter um cronograma de tarefas”, afirma.

Segundo ela, organizar as atividades por ordem de prioridade permite visualizar melhor o que precisa ser feito e também reservar espaço para situações inesperadas. Nesse planejamento, as pausas também deveriam estar previstas. “É importante pegar, beber uma água, parar um pouquinho, tomar uma xícara de café para você deixar a mente mais leve”, completa.

O trabalho não termina necessariamente quando o expediente acaba

A fronteira entre trabalho e vida pessoal ficou mais difícil de enxergar. Antes, o fim do expediente costumava ser marcado por limites mais concretos: sair do local de trabalho, pegar o caminho de volta para casa e encerrar as atividades do dia. Com o celular e as tecnologias digitais, essa separação ficou mais tênue. Uma mensagem de trabalho pode chegar à noite, uma demanda pode ser acompanhada de qualquer lugar e, no home office, o próprio espaço da casa passou a também ser espaço de trabalho.

O resultado é que, mesmo fora do horário, muitas pessoas continuam psicologicamente conectadas às demandas profissionais. A tecnologia facilita o trabalho, mas também pode ampliar a disponibilidade esperada do trabalhador.

A Organização Internacional do Trabalho (OIT) alerta que jornadas excessivas e períodos inadequados de descanso e recuperação podem prejudicar a saúde dos trabalhadores e aumentar o risco de acidentes.

Uma análise conjunta da OIT e da Organização Mundial da Saúde (OMS) ajuda a dimensionar o impacto das jornadas muito longas: em 2016, trabalhar 55 horas ou mais por semana esteve associado a 745 mil mortes por doença cardíaca isquêmica e acidente vascular cerebral no mundo. 

O estudo também encontrou evidências suficientes de que jornadas nessa faixa estão associadas a maior risco dessas doenças em comparação com jornadas de 35 a 40 horas semanais. O problema, portanto, não é simplesmente trabalhar. É quando o trabalho começa a ocupar todos os espaços disponíveis.

O Brasil está olhando para isso de outra maneira

Existe um movimento importante acontecendo no país. Desde 26 de maio de 2026, entrou em vigor a nova redação do capítulo 1.5 da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que passou a incluir os fatores de riscos psicossociais relacionados ao trabalho no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais.

A mudança amplia a perspectiva sobre saúde e segurança do trabalho. A saúde do trabalhador não depende apenas de evitar acidentes físicos. A forma como o trabalho é organizado também pode produzir riscos: sobrecarga, excesso de demandas, falta de autonomia, conflitos, assédio, falta de apoio e metas excessivas.

O Ministério do Trabalho e Emprego estabeleceu, para a Campanha Nacional de Prevenção de Acidentes do Trabalho (CANPAT) de 2026, o foco na prevenção dos riscos psicossociais no trabalho. A iniciativa chama atenção para os transtornos mentais relacionados ao trabalho e para a necessidade de prevenção e controle desses riscos.

A atuação da psicóloga Luana Corrêa Santos Amaro junto a empresas e no desenvolvimento de lideranças também a coloca diante de questões relacionadas à saúde mental no trabalho e aos desafios da gestão de pessoas. A partir dessa experiência, ela chama atenção para a importância de olhar para a saúde mental no ambiente profissional e, especialmente, para o papel das lideranças.

“Desde a pandemia, a gente percebeu que as pessoas precisavam de um apoio em relação à sua saúde mental no trabalho, como lidar com a pressão, com a solidão e com as cobranças excessivas”, afirma. Para ela, esse cuidado começa também pela preparação dos gestores. “É importante que esse líder saiba fazer a gestão do tempo dele, saiba delegar tarefas, acompanhar a execução e dar feedbacks construtivos”, explica.

A mudança também amplia a responsabilidade das empresas sobre a forma como o trabalho é organizado. Com a nova redação da NR-1, os riscos psicossociais passam a integrar a gestão de segurança e saúde ocupacional. Na prática, isso significa identificar, avaliar e prevenir esses fatores. Como explica a médica do trabalho e coordenadora de Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional, Ana Claudia Marques Fernandes.

“As empresas passam a ter que identificar, avaliar e prevenir riscos psicossociais relacionados ao trabalho, incorporando saúde mental e bem-estar à gestão de segurança e saúde ocupacional.”

Quando o cansaço deixa de ser apenas cansaço?

Todo mundo pode terminar um dia de trabalho cansado. Cansaço, por si só, não significa que exista um problema. A questão aparece quando a recuperação deixa de acontecer, a pessoa passa a acordar já pensando nas tarefas, o trabalho continua ocupando a cabeça durante o descanso e a atividade profissional começa a provocar distanciamento, cinismo ou uma sensação persistente de incapacidade.

A Organização Mundial da Saúde classifica o burnout como um fenômeno ocupacional, e não como uma doença ou condição médica em si. Segundo a definição da CID-11, ele está relacionado ao estresse crônico no trabalho que não foi administrado adequadamente e envolve três dimensões: exaustão, distanciamento mental ou sentimentos negativos em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.

Por isso, talvez seja importante parar de usar a palavra “burnout” para descrever simplesmente qualquer dia difícil. O sofrimento relacionado ao trabalho merece ser levado a sério, mas também precisa ser compreendido com precisão.

Ana Claudia Marques, que também atua como coordenadora de Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional, explica o que diferencia o burnout de uma sobrecarga pontual no trabalho:

“Burnout é um estado de esgotamento físico e mental, decorrente de estresse ocupacional crônico, já a sobrecarga pontual é temporária e tende a melhorar após descanso ou redução de demandas.”

Descansar não é o oposto de produtividade

Existe uma ideia bastante disseminada de que pessoas produtivas estão sempre ocupadas. Agenda lotada, caixa de entrada cheia, lista de tarefas extensa, pouco tempo livre. Mas estar ocupado não é necessariamente estar produzindo algo relevante.

Às vezes, estamos apenas trocando rapidamente de uma tarefa para outra. E cada interrupção tem um custo: uma mensagem, uma notificação, uma reunião que poderia ter sido um e-mail, um e-mail que chega durante uma tarefa importante, uma demanda que aparece antes de terminarmos a anterior.

No final do dia, fizemos muitas coisas, mas poucas delas com atenção.

A pausa também faz parte do trabalho

A organização do tempo de trabalho não diz respeito apenas à quantidade de horas trabalhadas. Ela envolve também a possibilidade de descanso, recuperação, concentração e equilíbrio entre as diferentes dimensões da vida.

O relatório da OIT publicado em 2026 sobre o ambiente psicossocial de trabalho destaca fatores como demandas profissionais, carga de trabalho, clareza de papéis, autonomia e organização do tempo como elementos importantes para compreender e prevenir riscos psicossociais.

Em outras palavras, não basta perguntar quanto tempo uma pessoa passa trabalhando. Também é preciso observar como esse tempo está organizado. Há espaço para concentração? As prioridades estão claras? Existem pausas? Há autonomia para realizar as tarefas? É possível desligar ao final da jornada?

Para a profissional de Recursos Humanos, Simone Sousa, trabalhar com atenção também passa pela capacidade de permanecer presente diante de um cotidiano marcado pelo excesso de informações. Com 29 anos de atuação na área, ela chama atenção para a importância de não se deixar levar pelo volume de estímulos e de conseguir direcionar o foco para aquilo que está sendo realizado.

“É extremamente essencial o profissional viver o presente, aqui e agora, e não se deixar perder pelo volume de informações. É essencial vivenciar o momento e dar foco ao que está fazendo, com inteireza.”

Trabalhar com atenção é escolher onde colocar energia

Por isso, é importante perceber que o trabalho atento não é aquele em que fazemos tudo, mas aquele em que conseguimos perceber o que merece nossa energia. É,por exemplo, terminar uma tarefa antes de começar três outras, desligar uma notificação que não precisa interromper o pensamento, estabelecer um horário possível para responder mensagens, fazer uma pausa antes de perceber que já estamos no limite e conversar com a equipe quando a demanda ultrapassa o que pode ser feito.

Também é compreender que algumas urgências são reais, e outras apenas chegaram até nós com uma aparência de urgência. E reconhecer que produtividade não pode ser uma medida permanente do nosso valor.

Para Simone, esse equilíbrio começa também por uma relação mais consciente consigo mesma. Na visão da profissional, quanto maior a capacidade de se fortalecer internamente e fazer escolhas conscientes, menor a possibilidade de carregar demandas que não precisam fazer parte da própria rotina.

“Quanto mais forte você está internamente, mais leveza você vai conseguir levar tudo. Você não vai ficar sobrecarregado e não vai carregar algo que não é necessário na sua bagagem.”

Quando o trabalho ocupa espaço demais

A administradora de empresas, Marcela Torres, trabalhava muito. O expediente raramente terminava quando chegava a hora de ir embora. As mensagens continuavam chegando, as tarefas se acumulavam e o celular permanecia por perto mesmo nos momentos que deveriam ser de descanso.

A rotina de trabalho foi ganhando espaço até começar a afetar outras áreas da vida. Vieram o cansaço, a dificuldade de desligar e, em determinado momento, o burnout e crises de ansiedade.

Foi quando percebeu que precisava rever a relação que vinha construindo com o trabalho. Começou a fazer terapia, retomou os cuidados com a própria saúde e passou a incluir atividade física na rotina. Também precisou reaprender a reconhecer limites, organizar prioridades e entender que nem toda demanda precisava ser resolvida imediatamente.

A mudança não aconteceu de uma hora para outra. Foi um processo de perceber que estar sempre ocupada não significava, necessariamente, estar produzindo melhor. Marcela descobriu, na prática, que trabalhar bem também envolve saber quando parar, onde colocar a atenção e o que realmente precisa ser feito.

Trabalho também tem limite

O trabalho faz parte da vida e, para muitas pessoas, é fonte de sustento, autonomia, realização, identidade, convivência e propósito. Por isso, não se trata de colocar o trabalho de um lado e o bem-estar do outro. A questão é construir uma relação em que um não precise comprometer o outro.

Trabalhar com atenção não significa necessariamente trabalhar menos, mas ter mais consciência sobre como, por que e até onde estamos trabalhando. Reconhecer os próprios limites, priorizar, pedir ajuda quando necessário, fazer pausas e permitir-se descansar também fazem parte de uma relação saudável com o trabalho.

Pausas fazem parte da rotina e definir prioridades, estabelecer limites, organizar demandas e saber o que pode esperar, também. Trabalhar com atenção não é fazer mais coisas ao mesmo tempo, mas conseguir se concentrar no que realmente importa. E foi oque Marcela fez. Ela percebeu que precisava se priorizar e reorganizar sua rotina, de modo que a vida ficasse mais leve e sustentável 

“Deixei de ficar olhando o telefone nos fins de semana e não passei a responder às mensagens de trabalho em tempo real. Hoje, procuro não levar trabalho para casa: quando termino o expediente, o expediente termina.”, celebra.

Trabalhar com atenção também é reconhecer que nem toda demanda precisa ser atendida imediatamente, que nem toda pausa precisa ser justificada e que o descanso não é o contrário do trabalho. É entender que produtividade não se mede apenas pelo que conseguimos entregar, mas também pela forma como conseguimos sustentar nossa vida para além das tarefas. E isso inclui saber a hora de parar.

Ana Cleide Pacheco
Sobre a autora

Ana Cleide Pacheco

Fundadora do Viva com Atenção

Jornalista de formação e de coração, Ana Cleide trabalha há mais de duas décadas com comunicação, conteúdo e histórias.

Sua trajetória também percorre o universo do mindfulness, da comunicação não-violenta, da economia da atenção e das práticas de presença.

Foi do encontro entre comunicação e cuidado que nasceu o Viva com Atenção, um espaço criado para refletir sobre relações, autocuidado, trabalho, escolhas, desaceleração e formas mais conscientes de estar no mundo.

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