A geração que desaprendeu a esperar

Quanto tempo você consegue esperar sem pegar o celular? Uma mensagem chega e esperamos a resposta quase imediatamente. Um vídeo demora a carregar e já parece haver alguma coisa errada. Queremos uma informação? Pesquisamos. Queremos conversar? Mandamos uma mensagem. Queremos assistir a alguma coisa? Há milhares de opções disponíveis. Queremos comida? Um aplicativo entrega. Queremos chegar a algum lugar? O mapa mostra o caminho.
Quase tudo está a poucos cliques de distância. Para crianças e adolescentes, que estão crescendo em um ambiente digital diferente daquele de seus pais, essa realidade faz parte da experiência cotidiana desde cedo. Isso não significa dizer que a tecnologia criou uma geração impaciente. Mas é possível observar como a disponibilidade permanente de respostas, estímulos e entretenimento pode mudar nossa relação com o tempo, e com a espera.
A pressa não nasceu com o celular. A diferença é que hoje muitas das esperas que faziam parte da vida foram simplesmente encurtadas.
Uma infância conectada
No Brasil, a internet já está presente na rotina da grande maioria das crianças e adolescentes. Segundo a TIC Kids Online Brasil 2024, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br|NIC.br), 93% dos brasileiros de 9 a 17 anos eram usuários de internet.
Entre eles, 76% afirmaram utilizar redes sociais e a mesma proporção disse usar serviços de mensagens instantâneas. No WhatsApp, 53% dos usuários disseram acessá-lo várias vezes ao dia e 17%, todos os dias ou quase todos os dias. YouTube, Instagram e TikTok também aparecem entre as plataformas de uso frequente.
Os números não permitem concluir que crianças e adolescentes tenham se tornado menos pacientes por causa da tecnologia. Eles ajudam, porém, a dimensionar o ambiente em que essa geração está crescendo: um cotidiano no qual conversar, pesquisar, assistir, comprar ou encontrar uma informação pode acontecer em poucos segundos. E, quando quase tudo pode acontecer imediatamente, esperar passa a ser uma experiência diferente.
O que acontece quando precisamos esperar?
Esperar nem sempre é confortável. Para uma criança, aguardar a vez em uma brincadeira, ouvir um “não”, esperar um adulto terminar uma conversa ou lidar com a frustração de não receber imediatamente aquilo que deseja faz parte do aprendizado.
Na adolescência, a espera ganha outras dimensões. Uma mensagem sem resposta, a expectativa por uma reação nas redes sociais ou a necessidade de estar sempre disponível podem tornar alguns períodos de silêncio mais difíceis.
Para a neuropsicóloga e sócia-proprietária do Espaço de Psicologia Mundo Psi, Kelly Matos, o excesso de estímulos e a velocidade dos conteúdos podem influenciar a maneira como crianças, adolescentes e adultos lidam com o tempo e com a atenção. A exposição frequente a vídeos curtos e conteúdos rápidos cria uma expectativa de respostas imediatas, tornando mais desafiadoras as experiências que exigem permanência e concentração.
“Nós fomos treinados para consumir conteúdos muito rápidos: Reels, TikTok, vídeos de 30 segundos, um minuto. Depois de um minuto, muitas vezes, aquilo já parece chato.” Kelly ressalta, porém, que a tecnologia não deve ser vista como a única responsável por essas mudanças. “Eu não sou contra a tecnologia. Acho que ela trouxe inúmeras coisas positivas.”
Outro aspecto que chama sua atenção é a comparação. Se comparar com outras pessoas não é novidade, as redes sociais ampliaram essa experiência ao colocar diante dos olhos, o tempo todo, recortes das conquistas e estilos de vida alheios. “O ser humano sempre se comparou, isso não é novo. A diferença é que hoje a comparação está em uma escala muito maior e acontece o tempo inteiro.” Para Kelly, esse fluxo contínuo pode alimentar a sensação de que é preciso estar sempre conquistando, produzindo e avançando, e de que nunca se está fazendo o suficiente.
Quando a espera chega em casa
É dentro de casa, porém, que essa relação com o tempo aparece de maneira mais concreta. A criança pede o celular enquanto espera uma refeição. O adolescente leva o aparelho para todos os ambientes. Uma fila, uma viagem de carro ou alguns minutos sem atividade podem ser rapidamente preenchidos por uma tela.
Ao mesmo tempo, os adultos também vivem conectados. Mensagens chegam fora do horário, notificações interrompem conversas e o celular está presente em praticamente todos os momentos. É uma contradição difícil de ignorar: queremos ensinar crianças e adolescentes a esperar, mas muitas vezes também demonstramos dificuldade em esperar.
Para a fisioterapeuta Marila Cardoso, mãe de Pedro Henrique, de 14 anos, e Laura, de 10, o controle das telas se tornou uma fonte de desgaste na rotina familiar. “O uso excessivo das telas, tanto da televisão quanto do telefone, tem causado um desgaste, porque eu tenho que estar chamando a atenção.”
Ela também percebe nos filhos os efeitos de uma rotina marcada por conteúdos rápidos. “A questão dessas mídias rápidas, TikTok e a instantaneidade, faz com que as crianças queiram as coisas com muita celeridade.” E resume: “Não têm paciência, não querem esperar uma vírgula, não querem esperar nada.”
O relato de Marila revela uma dimensão que os números não mostram: administrar o uso das telas também pode significar uma negociação diária entre pais e filhos. Mas há famílias tentando encontrar outras formas de organizar essa relação.
O professor de educação física Pablo Ferreira, pai de dois filhos, de 15 e 9 anos, conta que ele e a esposa, Amanda, estabeleceram combinados para o uso das telas. Na família, sexta-feira, sábado e domingo são os dias em que os filhos podem utilizar os dispositivos por até três horas. Nesse período, eles se revezam entre televisão e celular, em vez de permanecer o tempo todo em uma única tela.
A estratégia não elimina a tecnologia da rotina. Cria, porém, um limite previamente combinado, que ajuda a diminuir a negociação permanente sobre quando e quanto usar. “Eles têm três horas na sexta-feira, no sábado e no domingo. Mas esse tempo de tela só é liberado depois que as tarefas estão prontas. As atividades escolares e as de casa que são atribuídas a eles. Depois de tudo pronto, a gente dá o ok para que eles usem a tela dentro daquele combinado.”
Aprender a esperar
Se a espera pode ser difícil, ela também pode ser aprendida. Para a pedagoga Cláudia Motta, saber esperar está relacionado ao desenvolvimento da capacidade de lidar com limites, frustrações e situações que não acontecem no momento desejado. Essa habilidade também interfere na aprendizagem, já que aprender exige tempo, repetição, tentativa e erro, processos que nem sempre oferecem resultados imediatos.
“Aprender exige tempo, tentativa, erro, repetição e, muitas vezes, esperar para perceber o resultado.”

Para desenvolver essa capacidade, Cláudia destaca a importância das experiências vividas na escola e em casa, especialmente por meio de brincadeiras coletivas e esportes. Nelas, crianças e adolescentes precisam seguir regras, aguardar a vez, lidar com perdas, respeitar o tempo do outro e compreender que nem tudo acontece de acordo com a própria vontade. Mais do que estabelecer limites, trata-se de criar oportunidades para experimentar a espera e aprender a lidar com a frustração. “Mais do que simplesmente dizer ‘espere’, precisamos ensinar a criança a esperar.”
E se o intervalo não precisar ser preenchido?
É justamente aí que está um dos pontos mais interessantes dessa discussão. Vivemos em uma cultura que valoriza a eficiência. Até os momentos livres podem ser transformados em oportunidades para aprender, produzir, responder mensagens ou consumir algum conteúdo.
A tecnologia torna isso ainda mais fácil. Afinal, basta um toque para preencher o silêncio. Mas nem todo intervalo precisa ser preenchido. O tédio pode abrir espaço para uma brincadeira inventada na hora, uma conversa, um desenho, uma observação do ambiente ou simplesmente alguns minutos sem fazer nada. Não porque todo tédio precise ser produtivo, mas porque nem todo minuto precisa servir para alguma coisa.
A psicóloga, Especialista em Terapia Cognitivo Comportamental; Psicopedagogia clínica e institucional; Neuropsicologia e Arteterapia Renata Félix, chama atenção para outro aspecto dessa discussão: a exposição constante a respostas e recompensas imediatas também pode interferir na maneira como crianças e adolescentes aprendem a lidar com a espera e a frustração.
“Quando a criança está o tempo todo exposta a respostas e recompensas imediatas, ela pode ter menos oportunidades de experimentar a espera, o ‘agora não’, o erro e a frustração.”

Segundo a psicóloga, isso ganha importância porque o sistema responsável pelo controle do comportamento e das emoções ainda está em desenvolvimento durante a infância e a adolescência. Esperar, controlar um impulso e lidar com uma emoção negativa são habilidades que não nascem prontas. Elas são construídas nas experiências do cotidiano, com o exemplo e a mediação dos adultos.
Quando essas experiências ficam menos presentes, algumas dificuldades podem aparecer no comportamento: impaciência, irritação diante de pequenas frustrações, desistência rápida diante de atividades difíceis, dificuldade de perder ou uma necessidade constante de estímulos e recompensas.
Para Renata, o caminho não está em evitar toda frustração, mas em ajudar crianças e adolescentes a atravessá-la. “Por isso, não precisamos evitar toda frustração. Precisamos ajudar a criança a atravessá-la. É assim que ela vai descobrindo o mundo, pois a vida é feita de muitos nãos.”
O “não”, nesse sentido, também pode ser uma oportunidade de desenvolver resiliência, calma e autorregulação. A espera permite que a criança perceba que nem tudo acontece imediatamente e que algumas coisas precisam seguir seu próprio processo. “Tudo é um processo. Desde a hora em que acordamos, fazemos as coisas por etapas. Quando prestamos atenção nisso, aproveitamos mais a vida.”
Aprender a esperar também pode favorecer o crescimento e a regulação emocional, além de contribuir para o autoconhecimento. Ao sair da lógica de buscar constantemente a próxima recompensa ou antecipar o que vem depois, a criança encontra espaço para experimentar o presente e perceber o próprio processo.
O que fazemos com o tempo que sobra?
A espera está nos pequenos espaços do dia: entre uma mensagem e outra, antes de uma resposta, durante uma fila, no caminho para algum lugar. São momentos que costumamos preencher quase sem perceber.
Mas nem todo intervalo precisa ser ocupado. Algumas experiências precisam de tempo para acontecer, e algumas descobertas só aparecem quando não há uma tela oferecendo imediatamente alguma coisa para ver, ouvir ou fazer.
Para crianças e adolescentes, aprender a esperar significa ter espaço para experimentar o tédio, o silêncio e a espera. Aos adultos cabe criar esses espaços, estabelecer limites para o uso da tecnologia e ensinar, pelo exemplo, que nem todo momento precisa ser preenchido por uma tela.
No fim, a questão não é quanto tempo passamos diante das telas, mas o que acontece nos momentos em que elas não estão ali. Porque uma infância não é feita apenas do que oferecemos às crianças para fazer, mas também dos espaços que deixamos para que elas descubram o que fazer.

Ana Cleide Pacheco
Fundadora do Viva com AtençãoJornalista de formação e de coração, Ana Cleide trabalha há mais de duas décadas com comunicação, conteúdo e histórias.
Sua trajetória também percorre o universo do mindfulness, da comunicação não-violenta, da economia da atenção e das práticas de presença.
Foi do encontro entre comunicação e cuidado que nasceu o Viva com Atenção, um espaço criado para refletir sobre relações, autocuidado, trabalho, escolhas, desaceleração e formas mais conscientes de estar no mundo.
