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Quando foi que deixamos de reparar nas estações do ano?

Ana Cleide Pacheco
Por Ana Cleide Pacheco
01 de setembro de 2026 10 min de leitura
Para começar

Você sabe quando começa a primavera? No Brasil, a estação tem início oficialmente em 22 de setembro, com o equinócio que marca sua entrada no Hemisfério Sul. A data é precisa e está no calendário, mas perceber a primavera exige mais do que saber quando ela acontece.

Os dias se transformam, a luminosidade muda, algumas plantas florescem, determinados pássaros aparecem com mais frequência e a temperatura anuncia uma nova fase do ano. A natureza continua produzindo sinais, mas nem sempre estamos disponíveis para percebê-los. Reconhecer essas mudanças exige observar o que acontece ao redor.

Durante muito tempo, as estações ajudaram a organizar a vida. Havia épocas de plantar e colher, períodos de chuva e de seca, frutas que apareciam em determinadas épocas do ano, flores que anunciavam mudanças e dias mais longos ou mais curtos. 

A rotina contemporânea reduziu parte dessa dependência dos ciclos naturais. Passamos a manhã em ambientes fechados, entramos em carros, trabalhamos em espaços climatizados, fazemos compras pelo celular e terminamos o dia diante de uma tela. A primavera continua acontecendo, mas a experiência de percebê-la pode ficar em segundo plano.

Essa distância não significa que deixamos de ter contato com a natureza. Ela continua presente nas cidades, nas árvores das calçadas, nas praças, nos jardins, nas plantas cultivadas em apartamentos, na mudança da luz ao longo do dia, no céu entre os prédios e nos sons que acompanham cada período do ano. O que muda é a atenção que dedicamos a esses sinais.

O mundo continua dando sinais

A natureza não envia notificações. Não aparece uma mensagem no celular avisando que uma árvore começou a florescer ou que o vento mudou. Também não existe um alerta para informar que determinado pássaro voltou a aparecer ou que a luz do fim da tarde está diferente. Perceber essas mudanças exige uma atenção menos acelerada e mais sensorial. É uma forma de observar o que está acontecendo sem transformar cada experiência em uma tarefa.

A bióloga Fernanda Gondra chama atenção justamente para a quantidade de sinais que acompanham as mudanças de estação. Segundo ela, a intensidade com que percebemos essas transformações depende tanto do lugar onde vivemos quanto da rotina que levamos.

“Muitos são os sinais que a natureza nos dá, sinalizando as mudanças de estações. A depender do local em que vivemos, esses sinais são mais intensos ou sutis, mais perceptíveis ou não. Essas variáveis estão ligadas também à nossa rotina, ao imediatismo da vida moderna.”

Para Fernanda, a permanência em ambientes fechados pode afastar nossa percepção dessas mudanças. Quem passa o dia em um escritório climatizado e deixa o trabalho quando já escureceu, por exemplo, tem menos oportunidades de acompanhar as variações de luminosidade e temperatura que acontecem ao longo do dia e das estações.

“Se passamos o dia em um escritório, com ar-condicionado, e quando saímos o sol já se pôs, não percebemos a oferta de luz que temos ao longo do dia em qualquer estação. Também não nos damos conta de que cada estação tem uma oferta maior ou menor de luz. Se estamos o tempo inteiro dentro desse ambiente, não percebemos o quanto algumas estações são mais quentes ou as temperaturas são mais altas ou baixas, dependendo da região do país em que vivemos.”

A atenção começa quando olhamos de novo

A relação entre as estações e a maneira como percebemos o ambiente também vem sendo investigada pela ciência. Um estudo intitulado “The effect of seasonality and weather conditions on human perception of the urban–rural transitional landscape”, publicado na revista Scientific Reports em 2023, analisou como as mudanças sazonais e as condições meteorológicas influenciam a percepção de paisagens urbanas e rurais.

Para isso, os pesquisadores utilizaram rastreamento ocular e observaram diferenças na forma como os participantes direcionavam o olhar para as paisagens em diferentes condições. Os resultados indicaram que as mudanças provocadas pelas estações, incluindo alterações na vegetação e na iluminação, interferem na maneira como o ambiente é visualmente percebido.

O biólogo e trilheiro, Leonardo de Oliveira Cardoso da Silva, explica que essas transformações podem ser percebidas em diferentes elementos do ambiente, muitos deles discretos. Temperatura, umidade, luminosidade e comportamento dos animais fazem parte de um conjunto de sinais que acompanha os ciclos naturais, assim como as mudanças observadas em plantas, fungos e outros organismos.

“Como biólogo e trilheiro, sempre procuro observar a vida ao redor. A mudança das estações aparece em muitos sinais sutis: na temperatura, na umidade, na luminosidade, no comportamento dos animais e no ciclo de plantas, fungos e outros organismos. Há espécies que preferem períodos mais quentes e úmidos, enquanto outras se desenvolvem melhor em temperaturas mais amenas.”

Entre os sinais mais visíveis, Leonardo destaca a floração de algumas árvores durante a primavera. O ipê-amarelo, por exemplo, pode transformar a paisagem e chamar a atenção mesmo de quem não costuma observar as mudanças naturais de maneira intencional. Para ele, acompanhar esses ciclos ao longo do tempo também permite perceber alterações nos padrões que costumavam ser mais familiares.

“A entrada da primavera é marcada pela floração de muitas árvores. Para mim, um dos sinais mais marcantes é o ipê-amarelo: é difícil não reparar nas flores caídas, tingindo o chão de amarelo. Ao longo dos anos, porém, tenho percebido que alguns ipês parecem estar estendendo seu período de floração. No ano passado, por exemplo, observei florações até janeiro de 2025, algo que considero incomum em comparação com o padrão que costumava notar.”

A cidade também tem estações

A ideia de conexão com a natureza costuma ser associada a florestas, praias, montanhas e áreas rurais. Nas cidades, porém, os ciclos naturais continuam presentes e podem ser observados em uma escala muito próxima.

Uma árvore da rua pode mudar de aparência ao longo do ano. Uma praça pode receber diferentes espécies de aves. Uma planta cultivada em uma varanda responde à luminosidade, à temperatura e à quantidade de água. O céu muda de cor e de intensidade conforme os períodos do ano, e o comportamento de algumas espécies também acompanha os ciclos ambientais.

Até os espaços urbanos oferecem oportunidades de contato com a natureza. Um estudo bibliométrico intitulado “As contribuições da visitação em parques para a saúde e bem-estar”, de Altair Sancho-Pivoto, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), e Sidnei Raimundo, da Universidade de São Paulo (USP), publicado na Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo, analisou 55 trabalhos científicos sobre a visitação de parques urbanos e não urbanos.

Entre os estudos analisados, os pesquisadores identificaram associações entre a visitação desses espaços e aspectos como saúde física, prevenção de doenças, restauração por meio do contato com a natureza e sociabilidade.

A bióloga Fernanda Gondra destaca que esses sinais não estão restritos a áreas de preservação ou ambientes distantes dos centros urbanos. Eles fazem parte da paisagem e podem ser percebidos em diferentes elementos do cotidiano.

“Os frutos típicos de cada época, a transformação na umidade, o aroma das flores, as mudanças no solo e até as mudanças nas marés provocadas pelas fases da Lua fazem parte desses sinais.”

Estar presente também é perceber o que está acontecendo

A atenção plena parte de uma ideia simples: direcionar a atenção para a experiência presente, com consciência do que está acontecendo naquele momento. Quando essa prática se aproxima da natureza, elementos cotidianos podem ganhar outra dimensão: o som da chuva, o calor do sol, a temperatura do ar, o movimento de uma folha, o cheiro da terra ou a mudança da luz.

Não se trata de transformar qualquer caminhada em uma prática formal de meditação. Trata-se de perceber que o ambiente também participa da experiência que estamos vivendo.

A fisioterapeuta e especialista em Fisioterapia Integrativa, Microfisioterapia, Neurociências e Mindfulness, Maria Juliane Ribeiro Braga, explica que a prática da atenção plena pode ajudar justamente a interromper o funcionamento automático e direcionar a percepção para aquilo que está acontecendo no presente.

“A prática da atenção plena faz parte da minha vida há muito tempo e me auxilia a sair do automático. Com a prática, com o hábito de observar, consigo trazer minha atenção para o momento presente e realmente perceber tudo que está à minha volta.”

Para ela, a natureza oferece um ambiente especialmente rico para esse exercício de atenção. A diversidade de elementos presentes em uma paisagem pode favorecer uma observação mais cuidadosa, enquanto as próprias estações criam momentos em que determinadas transformações se tornam mais evidentes.

“A natureza é riquíssima e é uma fonte onde conseguimos descansar a mente, observar detalhes maravilhosos e uma variedade de elementos. A própria natureza, com as estações do ano, principalmente a primavera, chama a atenção. Até quem não pratica atenção plena para, por alguns momentos, contemplar essas maravilhas. Um ipê-amarelo, por exemplo, é difícil de passar despercebido.”

A atenção plena pode contribuir justamente para interromper, por alguns instantes, o modo automático de funcionamento. Em vez de atravessar um caminho pensando apenas no próximo compromisso, é possível perceber o próprio caminho. Em vez de olhar para uma praça enquanto responde mensagens, observar o que acontece naquele espaço. É uma mudança pequena, mas significativa: sair da posição de quem apenas passa e assumir a posição de quem observa.

Reaprender a reparar

Não é necessário fazer uma viagem, passar horas em uma trilha ou morar perto de uma área de preservação para recuperar essa percepção. A observação pode começar no cotidiano: abrir a janela pela manhã e perceber a luminosidade, reparar em uma árvore no caminho para o trabalho, observar como a sombra de um prédio muda ao longo do dia, identificar uma planta que floresceu ou escutar os sons de uma praça.

Também não é preciso transformar essa observação em uma nova tarefa. A proposta é perceber mudanças que já fazem parte do ambiente e que muitas vezes passam despercebidas no ritmo cotidiano.

Uma árvore que floresce, perde folhas ou começa a produzir frutos pode revelar mudanças na estação. A alteração da luz modifica a paisagem, a temperatura, a chuva e a presença de determinadas espécies também acompanham os ciclos do ano. Prestar atenção a essas mudanças não exige muito tempo. Exige disponibilidade para olhar, ouvir e perceber.

O tempo também floresce

Aprendemos a acompanhar o tempo principalmente pelo relógio: horas, minutos, compromissos, prazos e notificações. Ao redor desse tempo marcado, existe outro: o das plantas, dos animais, da luz, das chuvas e das estações. Percebê-lo não exige abandonar a vida contemporânea, mas abrir espaço para uma experiência que não depende de velocidade.

A primavera chega independentemente de estarmos atentos. As mudanças acontecem mesmo quando estamos olhando para uma tela. O mundo continua produzindo sinais enquanto seguimos ocupados com nossas tarefas. A questão, então, não é apenas saber quando começa a primavera, mas perceber quanto do que acontece ao nosso redor estamos conseguindo acompanhar.

Neste ano, experimente prestar atenção às pequenas mudanças que acompanham a chegada da primavera. Pode ser na praça do bairro, na árvore da rua, no jardim de casa ou até pela janela. 

Observe como a luz muda, como a temperatura se transforma, quais plantas florescem, quais sons aparecem e como a paisagem se modifica ao longo das semanas. A proposta não é transformar essa observação em uma atividade ou produzir algum resultado a partir dela. É apenas abrir espaço para perceber mudanças que já estão acontecendo. 

A primavera não depende da nossa atenção para acontecer. Mas perceber suas transformações pode ser uma maneira simples de recuperar o contato com os ciclos naturais que continuam fazendo parte da vida, inclusive nas cidades.

Ana Cleide Pacheco
Sobre a autora

Ana Cleide Pacheco

Fundadora do Viva com Atenção

Jornalista de formação e de coração, Ana Cleide trabalha há mais de duas décadas com comunicação, conteúdo e histórias.

Sua trajetória também percorre o universo do mindfulness, da comunicação não-violenta, da economia da atenção e das práticas de presença.

Foi do encontro entre comunicação e cuidado que nasceu o Viva com Atenção, um espaço criado para refletir sobre relações, autocuidado, trabalho, escolhas, desaceleração e formas mais conscientes de estar no mundo.

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